Pesquisar este blog

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

sábado, 18 de dezembro de 2010

Natal Criativo traz shows da Broadway a Orlândia


Apresentação da Usina da Dança no Natal Criativo, no ano passado

Josimara Mendonça, do IORM
O Instituto Oswaldo Ribeiro de Mendonça encerra amanhã, na Praça Mário Furtado, a quarta edição do Natal Criativo, evento em que apresenta uma série de espetáculos pela Usina da Dança, companhia mantida pela ONG, ligada ao Grupo Colorado.

A Usina da Dança também apresenta números de shows consagrados, sucesso da Broadway, como “Annie”, “A Bela e a Fera”, “Grease”, “Chicago”, “Hairspray”, “O Rei Leão”, “New York, New York”, “Cantando na Chuva” e “A Noviça Rebelde”, além de “A Fantástica Fábrica de Chocolate” e “High School Music”.

A presidente do Instituto e coordenadora de Cultura de Orlândia, Josimara Ribeiro de Mendonça Camargo, diz que o espetáculo visa agradar a gostos distintos. “O espectador que se entusiasma por superproduções não pode perder os musicais da Broadway nos espetáculos programados para 18 e 19 de dezembro”. Ontem, a companhia apresentou o balé “O Quebra-Nozes”, de Tchaikovsky.

Os shows reúnem coreógrafos, bailarinos e técnicos de Orlândia, Miguelópolis e Guaíra, onde o Instituto Oswaldo Ribeiro de Mendonça mantém escolas.

O site da ORC informa que a estratégia do Instituto é, além de oferecer cultura de alto nível, tornar Orlândia mais atrativa, incentivando o comércio local, evitando que os consumidores façam suas compras em outras cidades da região.

O Natal Criativo tem apoio da Associação Comercial e Empresarial, Prefeitura Municipal de Orlândia, CPFL Energia, Grupo Colorado, Caixa Econômica Federal, Lei Rouanet de Incentivo à Cultura e Programa de Ação Cultural (Proac).

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Merry Christmas, a melhor festa do Natal

 Merry Christmas, a festa que agita o Natal de São Joaquim há dez anos, ganha novo espaço em 2010. A boate Phanteon será palco de uma das melhores mais aguardas festas do circuito regional. Promovida pelo expert em diversão Zé Renato Fiori, a Merry Christmas começa à 0h30 da noite de Natal.

Serão três ambientes, com quatro atrações que prometem diversão para todos os gostos: DJ Monkey Mark, Banda Nasco, Tio Song e Grupo KD Juizo. “Será a maior festa para comemorar estes dez anos”, conta Renato.

A festa é open bar, e conta com buffet especial, com ingressos limitados. Para depois do peru da ceia de Natal, nada melhor que curtir uma festança com os amigos. O pessoal da região já tem programa garantido.

Merry Christmas – Dia 25, 0h30 – Boate Pantheon (São Joaquim da Barra) – Ingressos: (16) 3818-1199; em Orlândia, pelo e-mail claudioliv@gmail.com
Merry Chrystmas de 2009

São Joaquim tem La Traviata em apresentação gratuita

A ópera La Traviata, do italiano Giuseppe Verdi, será apresentada em São Joaquim da Barra neste domingo, dia 19. Uma as mais conhecidas peças do mundo, será apresentada por três corais: Fabiano Louzano (da escola de mesmo nome, em São Joaquim), Art Musik e Doce Energia. A regência é do maestro Claudinei Alves de Oliveira, também à frente da Orquestra de Câmara Giuseppe Verdi, de Uberlândia (MG).

Trata-se de uma oportunidade praticamente única de assistir a uma ópera na região. A Prefeitura de São Joaquim, por meio da Secretarias de Educação e Cultura, patrocina a peça, com entrada franca. Portanto, recomenda-se chegar cedo, também por outro motivo além da possível procura: não se interrompe o espetáculo para procurar lugar na plateia.

La Traviata” é baseada no romance “A Dama das Camélias”, de Alexandre Dumas Filho (o pai, Alexandre Dumas, escreveu “Os Três Mosqueteiros”), que conta a história real da prostituta Marie Duplessis, uma das mais conhecidas da alta sociedade da França, na década de 1840. A história conta que o escritor teria tido um romance com Duplessis.

Na ópera, Duplessis é Violetta Valéry, culta cortesã, famosa por suas festas povoadas pela aristocracia e pela burguesia parisienses. É uma história de amor e tragédia, que começa por Valéry cedendo aos encantos do jovem Alfredo Germont, pelo qual abandona a capital, mudando-se para o interior. Porém, intrigas em casa, tanto da família de Alfredo quanto dos empregados, fazem-na voltar a Paris, onde uma sucessão de acontecimentos prenuncia seu fim.

Interpretam os papéis principais a soprano Amanda Neves (Valéry), o tenor Cleyton Pulzi (Alfredo Germont) e o barítono Gabriel Locher (Giorgio Germont, pai de Alfredo).

La Traviata” é, certamente, uma das óperas mais conhecidas, apesar da má recepção que teve quando estreou, em 1853, em Veneza. Entre seus intérpretes figuram alguns dos nomes mais importantes do canto lírico, como Maria Callas, Kiri Te Kanawa, Luciano Pavarotti, Plácido Domingo e Enrico Caruso, entre outros.

Abaixo, trechos da ópera, para degustação (inclusive pop).

La TraviataDomingo, 19, às 20h - Clube Espigão (São Joaquim da Barra)


Apresentação do Coral Fabiano Louzano de La Traviata (Coro dos Matadores), em Bebedouro-SP


Apresentação do Coral Fabiano Louzano de La Traviata (Coro dos Ciganos), em Bebedouro-SP 



Pavarotti, Domingo e Carreras interpretam a ária
"Libiamo ne' lieti calici"


Julia Roberts, em "Uma Linda Mulher", chora ao assistir à ópera pela primeira vez, "La Traviata"

Orlândia fica entre as dez melhores em saneamento

Capa da pesquisa da FGV sobre saneamentO

Orlândia é uma das dez cidades brasileiras campeãs em saneamento básico. A informação faz parte da pesquisa Impactos Sociais de Investimentos em Saneamento, feita pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, e divulgada no final de novembro. 

Além de Orlândia, também fazem parte da lista São Caetano do Sul, Barrinha, Igaraçu do Tietê, Santa Gertrudes, Serrana, São Joaquim da Barra, Franca, Barra Bonita e Américo Brasiliense. Entre os cinquenta com melhor saneamento, 44 são de São Paulo.

Segundo a pesquisa, disponível na internet, o acesso à água potável chega, em média, a 98,71% da população, e ao esgoto, 99,6%. A pesquisa é divida por perfis relativos a escolaridade, sexo, faixa etária, raça e situação de domicílio. Levando-se em conta a população masculina adulta, com sete anos de estudo, os números são parecidos: entre os não-afros, 99,2% têm esgoto, e 98,82% têm água; entre os negros, a taxa é de 98,82% no acesso ao saneamento básico, e 98,6% à água.

Os resultados, porém, não são tão animadores para a maioria dos municípios. Os especialistas apontam que somente em 2122 a totalidade da população brasileira terá acesso a esgoto. Hoje, falta saneamento básico para 47% da dos brasileiros, sendo as crianças entre 1 e 6 anos as principais vítimas.

Entre 1992 e 2006, subiu de 36,02% para 46,77% o acesso a esgoto, segundo dados do PNAD. São Paulo é o Estado com melhor colocação no ranking de saneamento básico, com 84,24% da população atendia (dados de 2006), seguido pelo Distrito Federal e por Minas Gerais.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Educação na era digital

Uso da lousa eletrônica na rede pública: avanços
A Prefeitura de Orlândia iniciou a distribuição de seu Boletim Informativo, cuja periodicidade é trimestral. Trata-se de um bom trabalho gráfico, possivelmente produto da Assessoria de Imprensa, que cumpre o objetivo de informar à população sobre os atos da Administração.

O informativo mostra que a Prefeitura tem apostado em parcerias para prover à cidade obras e qualidade de vida. Um dos pontos a destacar são as 113 lousas eletrônicas instaladas nas escolas municipais, utilizadas por 7 mil estudantes. Há anos Orlândia ostenta excelentes resultados na educação, principalmente entre alunos da pré-escola.

O Brasil, novamente, se vê num momento de baixa na área de educação. Pesquisa divulgada ontem, 7, pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econônimo (OCDE), aponta o país entre os três que tiveram a pior evolução educacional, numa lista de 65 nações. Assim, a utilização de novos métodos motivadores para os alunos é válida e importante para a melhoria da qualidade de ensino.

Uma das questões expostas pela pequisa, embora conhecida de todos que já puseram os pés numa escola, é a disparidade qualitativa entre a rede pública e a privada. Foram aplicados os testes do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), em que os estudantes brasileiros da rede pública atingiram 387 pontos ante os 502 da rede particular. São avaliados conhecimentos em ciências, matemática e leitura de estudantes de 15 anos.

Os investimentos em educação realizados pelos municípios por conta de exigências legais (25% das receitas devem ser utilizadas na área), notadamente paulistas, podem fazer a diferença para muitos estudantes. O uso de Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) na sala de aula insere o aluno num mundo que lhe é caro e familiar.

Com o uso da tecnologia de informação e comunicação, professores e alunos têm a possibilidade de utilizar a escrita para descrever/reescrever suas idéias, comunicar-se, trocar experiências e produzir histórias”, afirma a doutora em Educação Maria Elizabeth Bianconcini de Almeida, professora do Programa de Pós-graduação em Educação da PUC-SP, e uma das maiores especialistas do país na questão do uso das TICs.

Novos tempos

Em artigo publicado pela PUC, Maria Elizabeth defende: “De nada adianta o saudosismo. Mudaram os tempos e as necessidades. É imperioso mudar a escola e todos nós somos sujeitos dessa mudança. Como dizia Paulo Freire, temos de ser homens e mulheres de nosso tempo e empregar todos os recursos disponíveis para promover a grande mudança que nossa escola está a exigir. Não podemos ser omissos. A neutralidade representa a aceitação da situação atual, a conivência com o que já está posto.”

O investimento da Prefeitura nos equipamentos foi de R$ 1,8 milhão, segundo informa o site oficial. “Com acesso à internet e atividades interativas, as novas lousas tornam as aulas mais dinâmica e criativas, despertando nos alunos do ensino infantil e fundamental a vontade de estudar mais e aprender melhor”, diz o Informativo.

As lousas eletrônicas foram adquiridas da empresa Quality Tecnologia e Sistemas, que também promove capacitação dos professores. A jornalista Maria Beatriz de Campos Elias, editora-executiva da Editora Moderna e mestranda do programa de pós-graduação em Educação, Artes e Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie, publicou relatório sobre uso do equipamento, ao acompanhar um professor de História de Salvador-BA.

A inserção da multimídia – e consequentemente da tecnologia – em sala de aula não é sinônimo de inovação no processo de ensino-aprendizagem”, afirma ela na conclusão do trabalho. Ela considera “obsoleta” a prática de ler textos em PowerPoint em sala de aula, pois tal prática já não funcionaria na educação. “Educar não se limita à simples transmissão de conteúdos prontos, mas exige do professor o exercício contínuo sobre a prática, em busca de estratégias eficazes de ensinar e aprender”, afirma.

Capacitação

A escola é o palco da interação entre os estudantes, os professores, a família, a sociedade. Assim, Maria Beatriz num processo de mudança e aprimoramento do processo educacional a partir do encontro entre seus participantes. “É nesse ambiente fértil que poderão florescer novas práticas e novos valores que dão significado ao projeto profissional e pessoal de construção de uma sociedade mais igualitária.”

O caminho da capacitação constante do professor é apontado como forma de manter-se na dianteira dos desafios educacionais deste século. Há diversos projetos espalhados pelo país, com acertos e avanços, contornando obstáculos e traçando trajetórias de qualidade, com diz Maria Elizabeth.

Em relação à formação de educadores recomendam que tenha foco na escola e nas necessidades específicas de desenvolvimento pessoal e profissional contínuo dos professores, bem como nas necessidades relacionadas à prática com projetos em desenvolvimento no ambiente de trabalho”, escreve.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

“A fragmentação da internet não oferece nada”

Jornalista Alberto Dines
O jornalista Alberto Dines, criador do Observatório da Imprensa, será um dos professores de um curso de pós-graduação em jornalismo, oferecido pela ESPM. Em entrevista ao Estadão, Dines discorre sobre as dificuldades que profissionais de imprensa enfrentam atualmente. Crítico da imprensa brasileira, a qual conhece em décadas de trabalho, constata que os colegas leem pouco, inclusive seus próprios jornais. Não os acusa, porém, de falta de profissionalismo, mas credita o fato ao pouco tempo disponível, dividido entre fechamos cada vez mais curtos e necessidade de tornar texto e diagramação atraentes para o leitor. Na histórica coluna que fazia na Folha, "Jornal dos Jornais", mostrava o que havia de melhor e pior na imprensa nacional.

No curso, desenvolvido pelo jornalista Eugênio Bucci, Dines vai ensinar sobre história da imprensa – que, considera, ainda é desconhecida dos próprios profissionais. “ É impossível ser um bom jornalista sem conhecer a sua profissão, saber de onde você vem e para onde você vai”, afirma nesta entrevista, publicada dia 30 de novembro, na edição on line do jornal. Há alguns anos, quando trabalhava no “Jornal Atual”, grande aventura capitaneada pelo Tarciso Manso, fui apresentado ao Eugênio. Em duas horas de conversa, renovou minha visão sobre jornalismo, que aprendia na prática e na Unaerp (curso que não terminei).

Engraxei a cara e pedi a ele um artigo sobre o Dia da Imprensa, que gentilmente me mandou por fax (naquele tempo, 1991, era a forma mais moderna de comunicação) um artigo excelente (claro), em que dizia ter pesquisado sobre a data. Descobriu que era uma referência a D. João VI, que mandou fazer circular a “Gazeta do Rio de Janeiro”, em 10 de setembro de 1808. Em 1999, o Governo mudou a data oficialmente para 1 de junho em homenagem a Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça, criador do “Correio Braziliense”, editado na Inglaterra no mesmo ano, mas proibido pela Corte no Brasil. Não tenho mais o artigo, e se a judiada memória não falha, terminava com um “conselho”: “Que dia da imprensa o que, Claudião!”, instigando a buscar informações que de fato pudessem contribuir para a formação da opinião pública – e da verdade.

A historinha mostra que houve uma grande mudança no entendimento sobre o jornalismo e sua presença na sociedade. Os jornais passaram por uma transformação nos últimos anos, lançando seus profissionais numa busca frenética por informação – e hoje temos uma quantidade angustiante de notícias a acompanhar. Mas, será essa informação “deglutida”, ou apenas “ingerida”? A proliferação de blogues, como este, deu voz a uma multidão de pessoas que se quer fazer ouvir – mas não necessariamente tem algo a dizer. 

Entre opiniões baseadas apenas em suas paixões e gostos e “pensamentos” sobre a vida, vamos enchendo a lista de favoritos de sites que nunca mais veremos e acumulando artigos que nunca leremos. Enquanto isso, as questões importantes e que podem levar à diferença são deixadas de lado. Se o post desvia do foco do blogue, volta-se ao debate de algo também importante à sociedade. Para esta, parece faltam questionamentos a tantas respostas-padrão.

Abaixo, a reprodução da entrevista de Dines, cujo link direto é este.

A gente está fazendo uma matéria sobre o novo curso de Jornalismo da ESPM. Você vai cuidar da disciplina História do Jornalismo. Do que pretende tratar nas aulas?
Foi o nosso “reitor” Eugênio Bucci que escolheu essa disciplina. São poucas horas, 15 horas, que não é muita coisa. Eu preferi não fazer uma coisa cronológica, porque o tempo é insuficiente. Mas escolhi alguns tópicos que sirvam para contar algo do passado e tenham algum valor prospectivo. Quero falar sobre algumas transformações tecnológicas, o que é importante para tentar explicar às pessoas assustadas com o futuro do jornalismo que esse tipo de questionamento já ocorreu no passado. Surgiram outras inovações tecnológicas que pareciam catastróficas e acabaram sendo absorvidas. Vou usar isso e coisas muito específicas da nossa historiografia, inclusive historiografia política. Por que o Brasil demorou 300 anos para ter uma imprensa, aliás, 308 anos? Outros países tiveram tipografia e jornais muito antes do Brasil. Mesmo na América Latina, que também teve Inquisição e tudo.

E qual a causa do nosso delay?
Justamente pelo caráter – já escrevi sobre isso – diferente da Inquisição espanhola e da portuguesa. A Inquisição portuguesa foi muito centralizadora, a espanhola foi mais descentralizada. Tanto que você teve inquisições do México, em Lima, Cartagena da Colômbia. Essas autoridades inquisitoriais perceberam que tinham que autorizar algumas coisas, inclusive livros religiosos. E aí você tem uma tipografia funcionando, já fica mais fácil você ter um jornal funcionando. Então, digamos, essa é a diferença fundamental, por que o Brasil chegou tão tarde.

Aí você mistura isso com escravidão e analfabetismo e se tem esse mercado leitor nosso, que é relativamente pequeno, até um pouco frustrante de se trabalhar.
Aí evidentemente que tenho que me deter um pouquinho mais na figura que eu acho que é o nosso patrono, que não pode ser esquecido, um modelo de grande jornalista, mesmo hoje, Hipólito da Costa. Ele foi nosso primeiro jornalista livre, um crítico de imprensa, um historiador de imprensa. Foi um cara preocupadíssimo com o desenvolvimento brasileiro, tem cartas dele propondo que o Brasil produzisse ginseng, porque tinha um preço fantástico no mercado mundial e o Brasil tinha condições de produzir. Veja a cabeça dele, isso no início do século 19. Foi coisa pessoal dele. Ele fez uma viagem aos Estados Unidos, o que abriu muito a cabeça dele. Ele se interessava por tudo, o que, aliás, era típico da época. Tinha uma cabeça aberta. Era jornalista, mas também se interessava por ciência, por isso, aquilo. Mas era antes de tudo um jornalista, antes de tudo um crítico da imprensa. Tive o privilégio de reeditá-lo aqui no Brasil, porque a edição é muita rara, caríssima, na época o (empresário e bibliófilo José) Mindlin tinha. A gente editou a versão completa com mais dois volumes de apoio e eu fiquei fascinado com ele. Quer dizer, já era fascinado antes com essa figura, então eu vou dar uma atençãozinha no curso. Porque é o nosso primeiro jornalista – o governo Lula, meses atrás, o considerou herói nacional, ele e o padre Anchieta. Vou tratar também da imprensa na Independência, porque é um capítulo também pouco cuidado: foi o primeiro fato histórico brasileiro com testemunhos da imprensa. Como não há experiência neste sentido, todo mundo fica em cima da documentação oficial. Que é importante, claro. Mas, quando foi dado o famoso brado (do Ipiranga) retumbante, já tinha cinco jornais que cobriram e não deram nada sobre o brado...

Já li sobre isso. As menções ao episódio do Grito do Ipiranga só vão aparecer anos depois.
Fiz um programa sobre isso. Chamamos de historiadores e tal, e ficou comprovado – por eles, não por mim – que o Gritos do Ipiranga é uma invenção, é marketing, tipicamente marketing de (José) Bonifácio. Porque não aconteceu, o grande fato foi 12 de outubro, quando o imperador foi coroado.

Não se recorreu à imprensa para perceber esta mistificação?
É, mas não foi uma mistificação intencional, não.

Foi construída ao longo do tempo...
Exatamente. E acabou colando. Mas é que, passados tantos anos, ninguém consultou os registros da imprensa da época. Por falta de hábito. A imprensa estava muito engajada na independência e ela acompanhou tudo, só que nenhum dos grandes jornais que existiam na época falou do Grito do Ipiranga. Mencionou até a viagem de D. Pedro I a São Paulo. Ele veio em missão política para conseguir o apoio das, digamos, elites paulistas para a emancipação, disso não há dúvida. Mas o Grito... O rompimento com o pai se deu em agosto ainda, as cartas são conhecidas. E a imprensa da época noticiou isso. Então, é muito interessante isto. É a primeira grande cobertura política da imprensa brasileira e os historiadores comeram mosca, porque não estavam acostumados a consultar os jornais, só ultimamente há algumas historiadoras acompanhando isso...

Durante um bom tempo a comemoração da Independência ficou marcada pelo Dia do Fico ou o da coroação.
Mas é a Independência, 7 de setembro, que tomou, digamos, uma ressonância maior . O Dia do Fico é muito antes. A coroação é que foi realmente o fato programado para mostrar o Brasil independente.

De qualquer forma, a ignorância sobre a história do jornalismo no Brasil é grande...
É por isso que resolvi mergulhar nisso. Quando eu tive que sair do Brasil – em 1976 eu saí do Jornal do Brasil e não tinha emprego – recebi um convite para ser professor visitante em Columbia. Tinha de umas conferências, essas coisas. Falei: “Vou estudar a história da imprensa brasileira.” Eu conhecia por alto e levei alguns livros, e outros tinha na biblioteca deles, formidável, em português inclusive. É impossível ser um bom jornalista sem conhecer a sua profissão, saber de onde você vem e para onde você vai.

Já que falou em para onde o jornalismo vai, você disse que tem uma parte do curso sobre perspectivas. O que pretende abordar?
São essas transformações tecnológicas e sociológicas da sociedade. O jornalista passa a ter funções mais marcantes na sociedade e aqui, na tentativa de motivar, porque os alunos todos ocupam posições de comando nas redações, quero motivá-los. Apesar de aquela besta do Gilmar Mendes dizer que jornalista é como chefe de cozinha, essa é uma profissão muito importante, chave. Basta ver o número de jornalistas assassinados na Rússia, por exemplo, são as únicas pessoas que ousam enfrentar o arbítrio do Vladimir Putin. Por coincidência são mulheres jornalistas, são repórteres, que vão lá, contam a história toda e são mortas. Então o jornalismo tem um papel e ele pe cada vez mais importante. Não é só ficar fazendo twitter, mas fazendo trabalho de investigação, gastando sola de sapato.

Qual é a sua formação?Nenhuma. Fiz o científico e parei. Nunca mais. Mas quando completei dez anos de profissão eu já estava no JB tinha um ano, fui convidado por acaso pela PUC-Rio, que era a segunda escola de Jornalismo do Rio. A PUC estava montando o curso e perguntaram se eu não podia dar uma cadeira. Aí eu inventei uma cadeira que colou, fiquei lá nove, dez anos nessa cadeira, que era Jornalismo Comparado. Como eu tinha tido uma experiência variada, tinha trabalhado em vespertino, no matutino – naquela época existiam diferenças entre jornalismo matutino e vespertino –, em revista, então eu fiz essa cadeira. Foi muito bom. Pagava uma miséria, mas eu achava que tinha que sistematizar o meu conhecimento da experiência e foi muito importante. Tenho as anotações que fiz, para a época são muito boas.

Mas hoje, essa questão de como formar o jornalista: depois da queda do diploma, você teve cursos bons como o da Facamp, do (economista Luiz Gonzaga) Belluzzo e do João Manuel (Cardoso de Mello, também economista) fechando e na contra mão a ESPM lançando um curso de graduação e outro de pós. Como fica essa questão do modelo? Tem lugar para quem faz os quatro anos de Jornalismo e tem um lugar para quem cursou Economia e depois fez uma pós em Jornalismo.
Acho que tem, essa visão geral quem pode dar muito melhor é o Eugênio Bucci (diretor da pós da ESPM), que desenhou todo o currículo. O que acho importante destacar, não sei se ele falou pra você, é que a Abril é uma “learning organisation”, uma organização de aprendizado, está sempre provocando o aprendizado para, com isso, crescer. Quando cheguei lá eles só tinham apenas a experiência da Veja. Antes de lançar a Veja eles fizeram um curso e escolheram os melhores. Isso foi em 1968, eu cheguei lá em 1982. O Roberto (Civita) me deu algumas tarefas, e uma delas era organizar um curso anual, que continua até hoje. Fiz durante oito anos. Todo fim de ano os melhores alunos das escolas de Jornalismo são escolhidos pela Abril e fazem um curso – na época era teórico mesmo, agora eles estão fazendo um pouco mais prático, muito voltado para revista. Passavam por lá grandes jornalistas que estavam começando e os que se destacavam eram indicados para estágio. Veja escolhia, tinha prioridade, escolhia um ou dois, depois vinha a Exame. Cada uma pegava seu estagiário. Muitos fizeram carreira e se transformaram em grandes jornalistas. Foi uma experiência boa, e simultaneamente fizemos um negócio, a Abril com a Gazeta Mercantil – que naquela época estava na sua fase de ouro. Fizemos um curso para professores de Jornalismo, conseguimos recursos do governo, do Ministério da Educação que permitiram pagar passagens e hospedagens, e trouxemos gente do Acre ao Chuí, professores de toda parte do Brasil.

O curso é voltado para o jornalista entre 35 e 40 anos, que já está num cargo de chefia, sendo preparado para assumir tarefas maiores. O que você acha que falta para esse sujeito, o que você diria para quem que está nessa etapa da carreira? Outra questão é como você vê o estágio do jornalismo brasileiro numa comparação internacional em termos de qualidade. Eu sei que é uma pergunta bem ampla...Essa é pra me derrubar. Bom a primeira parte é fácil responder pelo seguinte: o jornalista de hoje sai da escola e faz um curso. O da Abril proliferou, a Folha passou a fazer, o Estadão fez, O Globo, todo mundo faz. Mas, mesmo assim, são coisas muito segmentadas. O bom do curso da ESPM é que ele tenta dar uma visão mais ampla, de situar no mundo. Então tem noções de economia, organização empresarial. Essa coisa de escolher a história da imprensa achei extremamente louvável, porque situa o trabalho num contexto maior. Não só são fechadores de páginas, não, é uma função social da impressa que vem de alguns séculos. Esse background não é oferecido. E o próprio jornalista não tem tempo, está ali no corre-corre, fechando, fechando, chega férias ele vai viajar e não quer nem saber. Depois volta e vai ficando pra traz, lê de vez em quando, mal lê o seu próprio jornal – ou quando lê é só pra ver erros –, mas não tem uma visão, uma reflexão sobre a sua profissão e seu papel dentro da sociedade. O jornalismo está em evolução. O texto está mudando. O lead já foi uma coisa, hoje não é. Agora tem o chamado jornalismo literário, que é realmente é uma ponte entre jornalismo e literatura. Então tem um processo evolutivo que a academia não faz, porque virou uma indústria de diploma. Então o curso é uma coisa extremamente positiva. Espero que o projeto continue e possa desenvolver outros cursos.

A ideia do Roberto Civita é a de criar não um curso, mas um núcleo. Numa segunda etapa ele admite abrir um curso preparatório, voltado, por exemplo, para passar fundamentos a médicos, engenheiros e economistas que querem migrar para o jornalismo, ou ter uma atividade jornalística paralela.
Bom, e quanto à segunda pergunta, sobre a qualidade da nossa imprensa na comparação internacional. É o seguinte: há um processo de desqualificação da vida em geral, da cultura em geral. Você pega uma música erudita que se fazia no século 19 e no 20 e a que se faz hoje, há uma diferença. No jornalismo também se nota, e as vezes no próprio jornal. Você pega um New York Times, pega o dias de hoje e o de 30 anos atrás. Você vê que era um jornal mais denso, mais amplo no seu escopo, na sua pauta. Então esse processo é inevitável. Alguns jornais lutam para não se desqualificar. Acompanho, não todo dia, mas quatro vezes por semana – porque a grana não dá, é muito caro o El País. Vejo que é um jornal que se esforça. Também comete lá seus deslizes, suas simplificações. Mas é um jornal que dá ao seu leitor, e portanto ao seu jornalista, a oportunidade de abrir a cabeça e se situar no mundo, olhar melhor as coisas. É uma exceção, como é o jornalismo alemão. São grandes jornais que apostam em densidade, não dão colher de chá, não simplificam.
Achei interessante o livro de Mathias Molina (ex-diretor da Gazeta Mercantil) que pega os grandes jornais. Os jornais de língua alemã, por exemplo, fazem pouquísimas concessões
 
É porque eles levam a sério. Não é à toa que a Alemanha é hoje o país que é. Fico fascinado. Custei muito a ir à Alemanha por razões obvias (judeu, Dines já estudou a Inquisição). Mas quando eu fui, falei: “Pô, isso aqui voltou ao tempo de Goethe, é impressionante como o país está imerso em cultura.”
Quando você fala de entender o papel do jornalista na sociedade, acho que no jornalismo impresso, principalmente, muitas vezes a gente perde de vista essa perspectiva, esse processo de influenciar a formação de opinião. Porque na televisão me parece meio claro, ninguém tem muita dúvida em relação a isso, é uma coisa tão direta e abrangente. O profissional do impresso parece não saber bem o que está fazendo ali, para quem está falando. Acho que é uma coisa que, por exemplo, me faria trabalhar melhor, pensar como se dá a formação de opinião pública. Os jornalistas não leem editoriais.

Não leem editorial, não leem os artigos maiores, dão uma olhada na página que tiveram de fechar ou nos títulos e chamada, e subtítulos de destaque, feitos para o jornal ficar mais bonito. Porque o jornalista, hoje em dia, é jornalista e ao mesmo tempo público. Quer dizer, ele sofre duas vezes, ele sofre como metalúrgico, ali no torno, ferramenteiro. E sofre também como usuário. Então é um círculo vicioso que leva para baixo, não há estímulos para dizer: “Você é um intelectual, você é um agente cultural, é um descendente direto do Samuel Johnson, do Hipólito da Costa ou sei lá de quem.” Isso ninguém diz, está faltando. Não sonhava ser jornalista. Virei jornalista por um certo acaso, mas, a partir do momento em que eu descobri o que tinha na profissão, falei é por aí que eu vou, e é isso que eu acho que falta fazer. A profissão tem um papel importantíssimo na sociedade, justamente por causa dessa sociedade globalizada, fragmentada, em que o jornalista tem que costurar e oferecer no dia seguinte – ou 12 horas depois ou 2 horas depois – uma coisa acabada para que as pessoas sintam que fazem parte da vida. Porque a fragmentação da internet não oferece nada, o sujeito se agarra a uma frase, não se agarra ao fato mais ou menos fechado, não é? Essa função do jornalista ela é melhor explicitada pela palavra em espanhol, que é periodismo. É uma coisa periódica, isso é a característica de nossa função. A gente não escreve livros que só podem sair depois de um ou dois anos. Então tem princípio, meio e fim, o nosso ciclo, o nosso relógio. A gente tem obrigação de fechar o dia e ao fazer isso tem que amarrar, fazer o leitor dizer “Ah, entendi, em tal período aconteceu isso, é coisa da maior importância. Sobretudo porque cada vez mais você tem informação e a informação precisa ser amarrada. Senão elas ficam circulando por aí, soltas e malucas, e sendo deterioradas, pelo mau uso e porque entra gente que distorce. Põe duas mentiras, e não sei o quê. É uma função social, sabe, é uma âncora mesmo da vida intelectual. Assim vejo o jornalismo hoje.

Quadrinhos malvados






Beleza interior



Malvados

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Incluído mantém exclusão?

Marshall Bernan: livro sobre a "capital do mundo"

A revista eletrônica Luz, produzida pela CPFL e editada por Carlos Vogt, traz na última edição um debate interessante a partir da pergunta: Quem são os incluídos do mundo contemporâneo? E convidou três pensadores, que defende seus pontos de vista a partir da vivência cotidiana e intelectual. Trata-se de um assunto importante, que resvala tanto nas relações interpessoais e do sujeito consigo mesmo, quando nesta "era digital", em que os meios de comunicação são acessíveis, mas nem sempre a comunicação ocorre de fato.


"A hiper valorização da imagem também trouxe suas consequências; ninguém corresponde ao corpo manipulado pelo photoshop, nem à vida glamorosa das propagandas de TV", diz a psicanalista Viviane Mosé. Para ela, a sociedade exige parâmetros impossíveis.

"O que resulta em uma sociedade onde todos são, de algum modo, excluídos: os muito feios, os muito bonitos, os muito pobres e também os muito ricos, os muito gordos e também os muito magros, os muito tranquilos, mas também os muito agitados, todos, indiscriminadamente sofrem algum tipo de exclusão" , afirma Mosé.

O psicanalista Otaviano Souza, da Fiocruz, levanta novas pergutas como tentativa de compreender o processo de inclusão/exclusão em que a sociedade está inserida. Ele levanta a questão: "O incluído, para se manter em um processo de inclusão, busca incluir o excluído, ou busca manter, ou ampliar, o círculo do excluído?"

"O pensamento atual e atualizante questiona as verdades, os gêneros, os terrenos do pensamento molar e fincado em raízes que pressionam um pensar, e isso vale inclusive para o conceito e conjunto de práticas no terreno do sujeito", escreve Renato Ferracini, diretor do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais da Unicamp. Para ele, verdades, gêneros e os terrenos do pensamento estão sendo questionados pela contemporaneidade, que considera um "borramento das bordas de delimitações".

Esta edição de Luz foca a concepção atual de gêneros, buscando a compreensão do masculino e do feminino na contemporaneidade. A revista também traz entrevista com o escritor João Silvério Trevisan sobre o papel do masculino e dos homens frente a novas forma de ver o mundo, da biotecnologia que modifica corpos, do anonimato proporcionado pela internet e mesmo da mulher chefe de familia. “O homem contemporâneo encontra-se sem chão”, avalia.

Há também uma resenha do livro “Um século em Nova York -Espetáculos em Times Square”, de Marshall Berman, em que foca a cidade, considerada a capital do mundo e suas implicações no entendimento do contemporâneo. Ele é autor de “Tudo que é Sólido Desmancha no Ar”, em que fala sobre o modernismo a partir da frase de Marx. A quem interessar, há um exemplar na Biblioteca Geraldo Rodrigues. Para quem for ficar em casa, opção de leitura leve e interessante.

O cidadão e o bandido

Tirinha do desenhista André Dahmer, publicada em seu site Malvados. É considerado um dos melhores artistas brasileiros, diversos livros publicados. Abaixo, trecho do programa Estúdio I, da Globo News, em que o jornalista João Paulo Cuenca fala do útimo livro de Dahmer, "Ninguém Muda Ninguém". Todas as capas da primeira edição, com seiscentos exemplares, serão desenhadas a mão por Dahmer.

Exposição revela marcos da TV no Brasil

Walter Foster e Vida Alves na novela "Sua Vida me Pertence", 1951: o primeiro beijo na tevê brasileira

A exposição Marcos da Televisão Brasileira está aberta ao público desde quinta-feira, na Casa de Cultura Cyro Armando Catta Preta, em Orlândia. Organizada pela Associação dos Pioneiros, Profissionais e Incentivadores da Televisão Brasileira (Pró-TV), a exposição mostra os sessenta anos da tevê no país com painéis fotográficos cheios de informações e curiosidades.

A exposição itinerante da Secretaria de Estado da Cultura foi obtida pela Coordenadoria de Cultura do município. Segundo a Assessoria de Imprensa da Prefeitura, são 36 painéis mostrando acontecimentos ou personalidades de destaque da televisão na Brasil, como o dia da inauguração da TV Tupi, chegada do homem a Lua, a Jovem Guarda, novelas, programas jornalísticos e os novos reality shows.
O Pró-TV mantem o Museu da Televisão, instalado em São Paulo, existe por obra da atriz Vida Alves, que protagonizou o primeiro beijo na tevê brasileira com Walter Foster na novela “Sua Vida me Pertence”, em 1951. Abaixo, dois vídeos em que o apresentador Amaury Junior fala com Vida sobre os primórdios da novela no país.

Marcos da Televisão Brasileira
Casa de Cultura (Avenida 2, 161)
Segunda a sexta-feira, das 8h às 16h30 (até 07/01/2011)
Informações: (16) 3820-8153 


Vida Alves em entrevista a Amaury Junior 1




Vida Alves em entrevista a Amaury Junior 2

“Orlândia vive uma utopia”


Festa do Peão: no palco, axé, sertanejo, pagode e Mariah Carey

Ele se recusa a acreditar que “o sonho acabou”. O médico Miguel Carlos Vitaliano, ou “Carlucho”, para amigos e conhecidos, busca onde possível os eventos culturais que aspira ver na cidade. Desculpe, aspira não, vê – mas é um dos poucos, como na apresentação de uma peça em que era um dos cinco únicos presentes na platéia. Mas tal situação não representa um “privilégio” de Orlândia, claro – talvez seja um reflexo da “boçalização” da juventude, embalada pela música “breganeja”, balaio em que joga sertanejo (com diploma universitário ou não), funk, axé e o que mais é tocado em alto volume na Rua Um.


“O cenário cultural é uma lástima”, atesta, com conhecimento de causa. Com dois livros de poemas publicados (“Um Livro” e “Outro Livro”), Carlucho é o “M” do grupo Gema, união de quatro jovens que ousaram cultura em terra conservadora. Ele é o único representante a permanecer na cidade, enquanto Gilberto Zancopé, Eugênio Bucci e Adilson Nunes (“Jovito”) buscaram outras plagas. Representante da resistência à banalização e à pasteurização da cultura, Vitaliano acredita que nem tudo está perdido. À falta de opções menos popularescas de cultura ou lazer, ataca: “Mas como é que (o povo) vai gostar se ninguém mostra?”
Para ele, Orlândia, vive uma utopia. Apesar de cavar trincheiras, sente que realidade e mentalidades demoram a se modificar. “Eu tenho uma preocupação muito grande com os rumos que as coisas estão tomando”, alerta. Com um irônico saudosismo, Carlucho concedeu a entrevista abaixo, em duas postagens no blogue.
- Ao longo dos últimos anos, o sr. fez de um grupo de jovens agitadores culturais, publicou livros, promoveu sessões de cinema de arte, e iniciou uma série de palestras médicas. O que acha do cenário cultural e educacional de Orlândia?
Eram os anos dourados, né? Realmente, nesse ponto, me considero uma pessoa de sorte. Tive o privilégio de ter mestres que deram rumo na minha vida e até hoje tenho frescas na memória as nossas conversas. Passava horas a fio conversando com a dona Inah, minha professora, inicialmente de Geografia e, depois, Estudos Sociais. Que pessoa fantástica! Foi ela a responsável pela mudança do meu enfoque sobre a vida. Passei a entender que não estava por aqui à toa, e que tinha uma missão a cumprir, mais do que simplesmente ficar "com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar”.
Outro mestre de grande importância na minha vida foi o professor Geraldo Rodrigues. Ninguém entendia por que é que eu, um primeiro-anista de Medicina, irrequieto e contestador, passava tardes e tardes no terraço do velho mestre sorvendo sua sabedoria.
Tive ainda bons exemplos de vida, com meus pais e seus amigos. Certa vez, ainda muito menino, estava com ele no gabinete do Sr. Cyro (Armando Catta Preta), então prefeito de cidade, e a certa altura a conversa foi interrompida pelo chefe de gabinete: "Sr. Cyro, o Sr. "fulano de tal”, de quem o senhor aprovou um loteamento, quer falar com senhor". Recebido o tal "fulano", ele doou um quarteirão ao professor, como gratidão. O seu Cyro não pestanejou: na mesma hora chamou o assessor e disse: "Acabei de ganhar um quarteirão. Anexe para a prefeitura e vamos construir nele uma escola."
Fui criado nesse meio, e anos depois me juntei ao Eugênio Bucci, atualmente professor da ECA-USP e jornalista do Estadão, ao Adilson Nunes (Rádio França Internacional) e ao Gilberto Zancopé (empresário em Curitiba-PR), formando o Grupo Gema, que rendeu um capítulo inteiro do meu primeiro livro (“Um Livro”). E se fosse contar o que representou o Gema para mim e para muitos, iria me alongar demais.
Como avalia os cenários educacional e cultural da cidade?
Sobre o cenário educacional, não me sinto à vontade para comentar, pois não entendo do assunto. Quanto ao cenário cultural, uma lástima. Infelizmente a mídia, com seu poderoso arsenal de besteirol, se encarregou de devastar a nossa cultura. A música “breganeja”, essa coisa horrorosa, tomou conta de tudo e “boçalizou” a juventude. O nosso carnaval não existe mais. O funk e os axés atordoam as frágeis cabeças dos nossos jovens com a péssima qualidade melódica e harmônica, as letras totalmente imbecis. O volume do som dessa barbaridade está criando uma geração fadada à surdez. A juventude atual perde muito com o desaparecimento das marchinhas, que sempre tinham um tom satírico e crítico, o romantismo da marcha-rancho e a alegria do frevo.
O teatro por aqui está em extinção. Assisti a algumas peças maravilhosas no Teatro Municipal, mas, infelizmente, algumas delas com público de dez ou doze pessoas. O espetáculo cênico-musical "Loucos Pela Vida", uma batalha espetacular pela reforma do nosso sistema manicomial, teve a espantosa audiência de um “grande público” de cinco pessoas. Foi sugerido, por ocasião do centenário da cidade, que se fizesse uma apresentação da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, mas nem uma palha foi movida nesse sentido, e o que vimos foi uma sucessão de músicas bregas e axé. A desculpa é sempre a mesma: “o povo não gosta”. Mas como é que vai gostar se ninguém mostra?
Recentemente, tive acesso a um show muito bonito e educativo: A História do Samba. Ele conta a história, mostra vídeos e depois apresenta um show musical. Contatei a produção e arrumei o material do show. Na mesma hora liguei para o Dr. Augusto Rodrigues, meu primo e diretor da CPFL, que liberou a verba para o evento. O que faltava? Nada, a não ser boa vontade. Adivinha no que deu?

Para se ter uma idéia do que temos por aqui, dia desses estava no MASP folheando alguns livros e em um deles, de fotografia, uma coletânea de contos e crônicas sobre o assunto.  Observei que, no mesmo livro, dois capítulos eram de autores orlandinos que mal se conheciam: Eugênio Bucci e Alberto Tassinari (que, se não nasceu aqui, morou aqui e a família é proprietária da Morlan).
Eu tenho uma preocupação muito grande com os rumos que as coisas estão tomando. Mas também ando cansado de malhar em ferro frio. Orlândia, terra onde estudou Carlos Vogt, onde nasceram Eugênio Bucci e Ângelo Bucci, Diomedes Cesário da Silva, Augusto Rodrigues, Fausto Feres e outras tantas pessoas de destaque nacional e internacional, merecia um destino melhor.  
Detalhe da Torre de Babel de Bruegel: utopia não concretizada
Complete a frase: A sociedade orlandina é...
Penso que a sociedade orlandina vive, como a maioria das cidades pequenas, uma utopia.
Que futuro espera para Orlândia?
Eu gostaria que Orlândia fosse uma cidade menos preconceituosa, com cidadãos realmente engajados politicamente de modo que compreendessem a importância da cidadania, reivindicando seus direitos e lutando por uma sociedade igualitária. Uma sociedade mais preocupada com o seu próprio desenvolvimento sociocultural. Não quero jamais acreditar que Lennon tinha razão quando pronunciou a famosa frase: “The dream is over.” Temo por isso.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Médico cria programa de prevenção à asma

O pneumologista Miguel Carlos Vitaliano
Respeitado pneumologista, Miguel Carlos Vitaliano vai além do atendimento aos pacientes no dia-a-dia do consultório. Crítico do sistema de saúde brasileiro, lamenta o desvio dos recursos da CPMF, originalmente criada para melhorar o setor. Ele acredita que Orlândia perde terreno ante a capacidade aglutinadora de outras cidades, apesar de considerar o Hospital Beneficente Santo Antonio, onde atua há mais de 25 anos, “o melhor da região”. “Faltam liderança e representatividade junto aos órgãos governamentais”, afirma.

A asma, que acomete 10% da população, ainda é ignorada por muitos dos doentes. Só em Orlândia, a estimativa é de 4 mil pessoas. A qualidade de vida é o principal objetivo do Respivida, programa que reduz o atendimento hospitalar e ambulatorial, ensinando inclusive como utilizar os aerosóis. Está previsto para 2011 o início de uma pesquisa nacional para medir o grau de conhecimento da asma na população. Vitaliano foi convidado a participar do projeto pelo médico Élcio Oliveira Vianna, do departamento de Pneumologia da USP-Ribeirão Preto.
Filiado à Associação Brasileira de Asmáticos (ABRA), que representa na região, Carlucho ministra palestras sobre o assunto em diversas cidades da região. O Respivida foi aprovado pela Sociedade Paulista de Pneumologia, pela Unifesp (apresentado à médica Ana Luiza Godoy Fernandes, e responsável pela implantação desse tipo de programa no Brasil) e pelo chefe do departamento de pneumologia da Faculdade de Medicina do Triângulo Mineiro, José Henrique Santana. “Esperamos melhorar a qualidade de vida, diminuir o número de dias de falta ao trabalho e prevenir o óbito dos pacientes”, explica.
O sr. possui um programa voltado a prevenção e tratamento da asma. Como funciona e onde foi implantado? Quais resultados já foram alcançados?
Nós, da Clínica Dr. Miguel Vitaliano, desenvolvemos o programa Respivida, que tem um enfoque diferente do tratamento da asma. Originário de Toronto, no Canadá, esse programa visa à educação e à prevenção dessa doença. O paciente aprende a conhecer essa enfermidade, saber os fatores desencadeantes e como evitá-los. Aprende também a conhecer as medicações, como e quando usá-las, e seus efeitos colaterais. O que percebemos é que, embora pareça simples, a grande maioria dos asmáticos não melhora com o tratamento por não saber como manusear os dispositivos de aerosol. Por isso, através de vídeos educativos, ensinamos como proceder.
Segundo o Jornal Brasileiro de Pneumologia (julho de 2009), pessoas que participam desse tipo de programa melhoram a qualidade de vida, diminuindo as internações hospitalares, os despertares noturnos e visitas a pronto-socorro em 60%. Ou seja, num universo como o da nossa cidade, com aproximadamente 4 mil asmáticos, 2,8 mil pessoas teriam a sua qualidade de vida melhorada. Estamos trabalhando com esse programa há um ano, do qual participam aproximadamente quarenta pessoas – e apenas três delas precisaram ser internadas.

O Brasil ainda apresenta indicadores de saúde entre os mais baixos dos países em desenvolvimento, ou mesmo em comparação aos da América Latina. Como avalia essa situação? São Paulo, o Estado, e Orlândia, inseridos nesta realidade, apresentam diferenças?
Acreditamos que a melhor coisa que foi feita pela saúde nos últimos anos foi a CPMF, mas infelizmente esse dinheiro foi desviado para a área econômica. Não há investimento no setor e o gasto per capita em nosso país fica muito aquém dos países de primeiro mundo e mesmo dos países latinos. Para entender melhor a situação, basta averiguada o estado em que se encontram os hospitais públicos, com raríssimas exceções.
No Estado de São Paulo, o último concurso público para médicos foi em 1984. Eu e mais um colega daqui passamos e estaremos aposentados em breve, extinguindo-se, assim os médicos que são funcionários públicos estaduais. Além do que, somos os médicos estaduais mais mal remunerados do Brasil, perdendo até para Estados muito mais pobres, como Piauí e Rondônia.
Em Orlândia, apesar de termos o melhor hospital da região, estamos atrasados. Só para exemplificar, Ituverava tem aparelho para hemodiálise e UTI credenciados pelo SUS. Agora estão adquirindo um aparelho de ressonância magnética. Nós, realmente, ficamos para trás. Faltam liderança e representatividade junto aos órgãos governamentais que briguem pela nossa cidade e consigam trazer melhorias para cá.