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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

“Orlândia vive uma utopia”


Festa do Peão: no palco, axé, sertanejo, pagode e Mariah Carey

Ele se recusa a acreditar que “o sonho acabou”. O médico Miguel Carlos Vitaliano, ou “Carlucho”, para amigos e conhecidos, busca onde possível os eventos culturais que aspira ver na cidade. Desculpe, aspira não, vê – mas é um dos poucos, como na apresentação de uma peça em que era um dos cinco únicos presentes na platéia. Mas tal situação não representa um “privilégio” de Orlândia, claro – talvez seja um reflexo da “boçalização” da juventude, embalada pela música “breganeja”, balaio em que joga sertanejo (com diploma universitário ou não), funk, axé e o que mais é tocado em alto volume na Rua Um.


“O cenário cultural é uma lástima”, atesta, com conhecimento de causa. Com dois livros de poemas publicados (“Um Livro” e “Outro Livro”), Carlucho é o “M” do grupo Gema, união de quatro jovens que ousaram cultura em terra conservadora. Ele é o único representante a permanecer na cidade, enquanto Gilberto Zancopé, Eugênio Bucci e Adilson Nunes (“Jovito”) buscaram outras plagas. Representante da resistência à banalização e à pasteurização da cultura, Vitaliano acredita que nem tudo está perdido. À falta de opções menos popularescas de cultura ou lazer, ataca: “Mas como é que (o povo) vai gostar se ninguém mostra?”
Para ele, Orlândia, vive uma utopia. Apesar de cavar trincheiras, sente que realidade e mentalidades demoram a se modificar. “Eu tenho uma preocupação muito grande com os rumos que as coisas estão tomando”, alerta. Com um irônico saudosismo, Carlucho concedeu a entrevista abaixo, em duas postagens no blogue.
- Ao longo dos últimos anos, o sr. fez de um grupo de jovens agitadores culturais, publicou livros, promoveu sessões de cinema de arte, e iniciou uma série de palestras médicas. O que acha do cenário cultural e educacional de Orlândia?
Eram os anos dourados, né? Realmente, nesse ponto, me considero uma pessoa de sorte. Tive o privilégio de ter mestres que deram rumo na minha vida e até hoje tenho frescas na memória as nossas conversas. Passava horas a fio conversando com a dona Inah, minha professora, inicialmente de Geografia e, depois, Estudos Sociais. Que pessoa fantástica! Foi ela a responsável pela mudança do meu enfoque sobre a vida. Passei a entender que não estava por aqui à toa, e que tinha uma missão a cumprir, mais do que simplesmente ficar "com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar”.
Outro mestre de grande importância na minha vida foi o professor Geraldo Rodrigues. Ninguém entendia por que é que eu, um primeiro-anista de Medicina, irrequieto e contestador, passava tardes e tardes no terraço do velho mestre sorvendo sua sabedoria.
Tive ainda bons exemplos de vida, com meus pais e seus amigos. Certa vez, ainda muito menino, estava com ele no gabinete do Sr. Cyro (Armando Catta Preta), então prefeito de cidade, e a certa altura a conversa foi interrompida pelo chefe de gabinete: "Sr. Cyro, o Sr. "fulano de tal”, de quem o senhor aprovou um loteamento, quer falar com senhor". Recebido o tal "fulano", ele doou um quarteirão ao professor, como gratidão. O seu Cyro não pestanejou: na mesma hora chamou o assessor e disse: "Acabei de ganhar um quarteirão. Anexe para a prefeitura e vamos construir nele uma escola."
Fui criado nesse meio, e anos depois me juntei ao Eugênio Bucci, atualmente professor da ECA-USP e jornalista do Estadão, ao Adilson Nunes (Rádio França Internacional) e ao Gilberto Zancopé (empresário em Curitiba-PR), formando o Grupo Gema, que rendeu um capítulo inteiro do meu primeiro livro (“Um Livro”). E se fosse contar o que representou o Gema para mim e para muitos, iria me alongar demais.
Como avalia os cenários educacional e cultural da cidade?
Sobre o cenário educacional, não me sinto à vontade para comentar, pois não entendo do assunto. Quanto ao cenário cultural, uma lástima. Infelizmente a mídia, com seu poderoso arsenal de besteirol, se encarregou de devastar a nossa cultura. A música “breganeja”, essa coisa horrorosa, tomou conta de tudo e “boçalizou” a juventude. O nosso carnaval não existe mais. O funk e os axés atordoam as frágeis cabeças dos nossos jovens com a péssima qualidade melódica e harmônica, as letras totalmente imbecis. O volume do som dessa barbaridade está criando uma geração fadada à surdez. A juventude atual perde muito com o desaparecimento das marchinhas, que sempre tinham um tom satírico e crítico, o romantismo da marcha-rancho e a alegria do frevo.
O teatro por aqui está em extinção. Assisti a algumas peças maravilhosas no Teatro Municipal, mas, infelizmente, algumas delas com público de dez ou doze pessoas. O espetáculo cênico-musical "Loucos Pela Vida", uma batalha espetacular pela reforma do nosso sistema manicomial, teve a espantosa audiência de um “grande público” de cinco pessoas. Foi sugerido, por ocasião do centenário da cidade, que se fizesse uma apresentação da Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, mas nem uma palha foi movida nesse sentido, e o que vimos foi uma sucessão de músicas bregas e axé. A desculpa é sempre a mesma: “o povo não gosta”. Mas como é que vai gostar se ninguém mostra?
Recentemente, tive acesso a um show muito bonito e educativo: A História do Samba. Ele conta a história, mostra vídeos e depois apresenta um show musical. Contatei a produção e arrumei o material do show. Na mesma hora liguei para o Dr. Augusto Rodrigues, meu primo e diretor da CPFL, que liberou a verba para o evento. O que faltava? Nada, a não ser boa vontade. Adivinha no que deu?

Para se ter uma idéia do que temos por aqui, dia desses estava no MASP folheando alguns livros e em um deles, de fotografia, uma coletânea de contos e crônicas sobre o assunto.  Observei que, no mesmo livro, dois capítulos eram de autores orlandinos que mal se conheciam: Eugênio Bucci e Alberto Tassinari (que, se não nasceu aqui, morou aqui e a família é proprietária da Morlan).
Eu tenho uma preocupação muito grande com os rumos que as coisas estão tomando. Mas também ando cansado de malhar em ferro frio. Orlândia, terra onde estudou Carlos Vogt, onde nasceram Eugênio Bucci e Ângelo Bucci, Diomedes Cesário da Silva, Augusto Rodrigues, Fausto Feres e outras tantas pessoas de destaque nacional e internacional, merecia um destino melhor.  
Detalhe da Torre de Babel de Bruegel: utopia não concretizada
Complete a frase: A sociedade orlandina é...
Penso que a sociedade orlandina vive, como a maioria das cidades pequenas, uma utopia.
Que futuro espera para Orlândia?
Eu gostaria que Orlândia fosse uma cidade menos preconceituosa, com cidadãos realmente engajados politicamente de modo que compreendessem a importância da cidadania, reivindicando seus direitos e lutando por uma sociedade igualitária. Uma sociedade mais preocupada com o seu próprio desenvolvimento sociocultural. Não quero jamais acreditar que Lennon tinha razão quando pronunciou a famosa frase: “The dream is over.” Temo por isso.

3 comentários:

  1. Meu amigo Carlucho puxa, como adorei, sabe eu Jornalista e babei e cima disto.
    Vc é e sempre foi um homem um profissional admirável, PARABÉNS.
    Como vc penso literalmente, e amo Orlândia, tenho muitas saudades dai, de todos amigos meus, mas como vc disse ao final sobre a frase de Lennon ´´The dream is over´´ também temo muito seriamente sobre o que poderá acontecer.
    Hoje eu vivo depois de um infarto e com câncer, em tratamento e gostaria de poder ver a nossa Orlândia como vc, Deus me dara tempo.
    Vc sabe, meu pai foi Ministro de estado, professor de ecologia humana em quatro paises durante 14 anos, vc nunca viu ou assistiu ostentação, preconceitos, vaidades, carros oficiais, seguranças ( a turma da Dilma estava ai armada à caça dos asseclas dos militares) assim nos chamavam, como ninguém em Orlândia viu minha família de helicópteros ou jatinhos.
    Um grande abraço meu amigo,
    Fernão Paulo Almeida Machado

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  2. Meu nome é Sonia, fique admirada com a excelente colocação do Doutor Miguel Carlos Vitaliano. Parabéns por sua clareza, foi muito importante suas colocações.

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  3. O Carlucho sabe o quanto gosto de suas idéias e textos. Concordo com ele. Orlândia deu sempre bons frutos e possui filhos (naturais e adotivos) ilustres esparramados por este mundo e deveria apresentar-se maior neste momento. A políca cultural precisa mesmo ser mais incentivada e fomentada, tanto pelo Poder público quanto pela sociedade civil organizada (embora, tal deficiência não seja privilégio de Orlândia; o Brasil carece de mais educação e cultura, todas sabem!). Parabéns à iniciativa dos blogueiros orlandinos e parabéns ao amigo Carlucho.

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